grindcore morto

Sobre a morte de Mc Daleste

 NO MASSACRE DE CLASSES
E A REVOLTA ANCESTRAL 

Um número enorme de pessoas, em sarcasmo, associou a morte de Daleste com os pedidos recentes por um país melhor, facebook se tornou um poço disso. Foram feitos de última hora jogos ironizando o assassinato, claro, carregados daquelas tosqueiras de imagens  ridicularizando gente de perfil periférico - dessas tipo pérolas de orkut, com pessoas tomando banho de refrigerante e posando para fotos na beirada de córregos de esgoto. A página de admiradores da rota, aplaudiu, desdenhou e divulgou, num esforço completamente bizarro, o acontecido. "Bizarro" pois ostentam o lema antigo de que "bandido bom é bandido morto", mas  a pessoa que fez isso, seja policial ou não, o fez totalmente fora da lei que a rota tanto diz defender, portanto se tornou em um "bandido"... Ora essas, então os admiradores da rota aplaudem e admiram também ao bandido? Mas não vamos nos deter em um detalhe tão infantil... 
[nota: a citada página foi curtida por 
duzentas... e  c i n q u  e  n  t   a... M... I... L ... pessoas...!]
Os quinze minutos de alarde reservados ao caso estão quase passando desse limite de tempo, talvez esperando a próxima tragédia, sempre rentável para a imprensa (anuladora) de massas, em jornalismo que ela mesma denomina como "policial".

É bem fato que Daleste compôs coisas agressivas com relação à polícia. Quanto a isso, os membros da banda representada nesta página tem a dizer o seguinte: Que ótimo!
Qualquer que se localize em uma periferia sabe, de ver na sua frente, que são poucas as pessoas que aprovam a ação policial. E dessas, nem todas aplaudem tão de pé como as redes record ou bandeirantes fazem parecer ao mostrar imagens de câmeras acompanhando a rotina de militares bonzinhos que pedem licença, dizem por favor e não estapeiam a cara de qualquer uma ou um que encontram na rua. De onde vem essa abordagem em que se incrimina a alguém por não aprovar, por alimentar ódio da ação policial - que é uma RESPOSTA!, e nada se cobra eficazmente da própria polícia - GERADORA dessa revolta?
Essa revolta toda poderia - deveria - ser entendida como algum tipo de sintoma, algo mais grave e mais profundo, apontando para problemas ancestrais. Mas não é nessa direção que olham os setores geradores de informação massificada - um dia esse posto foi da igreja, hoje o posto é da já citada mídia, e ambas sempre trabalhando em favor dos ricos de cada época. Esses setores ainda vendem a imagem heróica do pm cumpridor da lei e da ordem. E todo herói precisa de um panteão de vilões pra validar sua existência bem como fazer seus feitos se tornarem mais "evidentes através do contraste".
E a burguesia aplaude.
Em pé.

É com  esse mesmo olhar enevoado, que as classes dominantes sempre olharam para as periferias e óbvio que é assim que olham para um produto tão próprio da periferia, o advento do funk. E, trágico!, impelem o mesmo olhar nas camadas sociais de onde o funk é oriundo. Para essas camadas fica de lado a questão classista, a luta de classes, como se nunca nem mesmo tivesse havido uma, como se não estivesse acontecendo nesse exato momento... [outra nota: no momento, o que vai acontecendo é na verdade um massacre de classes, parecido com o massacre de focas por caçadores. E nessa analogia, não somos os caçadores...]
Esse momento triste a respeito de mais um assassinato de mc, fere mortalmente tanto o que se vive, se sente e se sabe das quebradas e do que se produz de comunicação e produção cultural nessas quebradas.

Não se trata (acho!) de "defender" o funk [mais uma nota:quem disse que isso é necessário? que alguém quer que se defenda o funk? Ainda mais eu, sem uma identidade profunda com o segmento??], mas nesse momento, é inevitável fazê-lo.
É inevitável defendê-lo porque está então inserido na luta de classes, e aqui, não há meios termos. Não há "neutros", a neutralidade é ponto dado às classes dominantes.
Alguém irá me dizer sobre machismo, violência, ostentação de posse e tudo o mais no funk, como já me disseram...
Pergunto: Será mesmo que o Punk, Hardcore, METAL, "rock" em geral, não sofrem desse mesmo mal...? E por abordar mais firmemente questões de construção social, não deveria ser dele feito a cobrança com a mesma força que se faz do funk, ou mais?
Creio que sim. Mas nosso olhar também enevoado, mente colonizada têm um tipo bem diferente de resposta ao que vem do famigerado cara-pálida... Não é desse mesmo modo que se olha "de fora" para o funk, porque se sabe bem de onde esse é oriundo, a cor da pele de quem o faz, a classe econômica...
Cobra-se do funk de ser, como já foi dito, machista, ostentador, violento...
Então entendamos isso: O funk não gera porra nenhuma dessas! As pessoas chegam nele "prontas". Ele é só uma arena em que tudo isso se dá, sejam ao menos gratos por nos ter mostrado além do que víamos normalmente. Se querem MESMO cobrar algo, será que não está a se cobrar no canto errado? O funk tem alguma obrigação de educar a alguém?
Quem tem? De quem se espera isso...?
[ainda mais uma nota: claro que é bem mais fácil arregaçar o povo da quebrada na paulada... "couro grosso", "acostumado"...]

As "comemorações"  da morte de Daleste se dão no meio desse massacre de sempre, com a periferia sendo pintada de vilã, sua revolta engasgada há tempos sendo mostrada como obra de maldade e de injustiça e seu desejo tão básico de se entreter, divertir tratado como desejo de gente que passou dos limites que lhes haviam sido concedidos...

[uma última nota: Quer você goste de ler  isso ou não, quando Daleste tombou no palco no sábado dia 06 de Julho, era um dos nossos que tombava...] 

4 comentários:

  1. Texto massa, finalmente alguém do "Punk" (escroto dizer que pertencemos a algum grupo especifico, mas você entendeu) "defendendo" (como você mesmo disse, 'ha necessidade de defender?') o "funk".

    Odeio como o funk é apontado como a causa de todos os males. Como se o funk fosse o que gerasse o machismo, a gravidez precoce, o crime, o tráfico... O funk é só um REFLEXO disso, mas claro que a música oriunda da classe pobre que vai ser crucificada e apontada como causa desses problemas, não o sistema escroto de sociedade em que vivemos.

    Enfim, ótimo texto e uma bela demonstração de como ser verdadeiramente livre de dogmas e preconceitos.

    -Sabote

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  2. Muito bom! Análise realista. Curti!

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  3. Lindo, mas vamos ver quantos traficantes, e se quantas mortes ele financiou, vamos ver quanto ódio ele propagou com suas canções e seus atos, quantos foram vítimas das drogas ou da violência por causa dele, ai veremos quem e mais violento um policial armado ou um financiador do tráfico.

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    1. R: Ambos.
      O financiamento do tráfico e o policial armado são ambas partes da violência estatal e Daleste não tem a ver com nenhum dos dois.

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